Circuito dos Cristais
As curvas percorridas até a linha de chegada

Quatro milhões de metros quadrados, 30 metros de desnível, 20 boxes, 17 curvas, uma delas com três raios. Números de um único projeto: o Circuito dos Cristais. O sonho dos mineiros apaixonados por esporte a motor que começou a tomar forma com a ideia do engenheiro e gerente de projetos Alfredo Rodrigues de criar um condomínio com pista de corrida e que, com o esforço de uma grande equipe, foi transformado no maior autódromo em funcionamento no Brasil.

 

Que uma corrida, seja de carros, motos esportivas ou caminhões, é algo emocionante de ver, não há dúvidas. As questões que inquietaram os idealizadores do circuito surgiram de outro ponto: a dificuldade de construir uma pista. Já que não havia, no país, empresas especializadas nesse tipo de empreendimento e que o valor para contratar profissionais europeus impediria a sua execução, Alfredo e seus sócios, o administrador Marco Túlio Ferreira dos Santos e o engenheiro Rafael de Faria Siqueira, desenvolveram um estudo de viabilidade inovador. O primeiro condomínio integrado a um autódromo na América Latina. Foram necessárias análises de áreas capazes de receber o circuito no que diz respeito à estrutura do solo, topografia, temperatura, volume e valor de terras. Quantos quilômetros os mineiros seriam capazes de viajar para correr?

Estudo pronto, momento de criar e treinar uma equipe para lidar com as especificidades desse trabalho. Dois anos de pesquisa sobre engenharia de autódromos. Muitas visitas técnicas, em especial no José Carlos Pace, mais conhecido como Interlagos, cursos de pilotagem e participações em track days. Dias de aferição de inclinações, áreas de escape e tamanho de zebras.

Antes de começar os track days a equipe media os níveis de cada curva para aprender mais sobre as particularidades técnicas de cada autódromo.

 

O quesito segurança foi uma grande preocupação durante a construção, todos os parâmetros estabelecidos pelos órgãos reguladores foram cumpridos. A pista do Circuito dos Cristais é homologada pelas Confederações Brasileiras de Automobilismo e de Motociclismo (CBA E CBM), pelas Federações Mineiras de Automobilismo e Motociclismo (FMA E FMEMG) e levou em consideração as recomendações da Federação Internacional de Automobilismo (FIA).

Pensada para suportar o altíssimo atrito dos pneus, a massa de asfalto utilizada foi desenvolvida a partir de estudos de patologia dos pavimentos e é mais densa que o normal. Um laboratório foi montado dentro do autódromo para fazer o controle de qualidade do composto. Por uma coincidência, havia, a 400 metros da pista, uma usina de asfalto instalada para realizar a pavimentação da Rodovia LMG-754. Esse fato garantiu que a massa recém-preparada fosse aplicada em alta temperatura. Para a base e sub-base do asfalto foram utilizados cascalhos de quartzo.

O Circuito dos Cristais, inaugurado em 2016, é considerado de média velocidade, isso porque tem muitas curvas. A razão dessa característica é uma curiosidade e foi um dos maiores desafios encontrados: para que a construção obtivesse licenciamento ambiental, precisaria manter os pequizeiros – árvores nativas protegidas por lei. Os responsáveis pelo traçado da pista, Alfredo Rodrigues e o arquiteto Henrique Dias Lopes, tiveram que estudar um jeito de encaixar o trajeto entre as árvores de forma interessante e segura do ponto de vista esportivo. “Trabalhamos duro para chegar numa pista de traçado elegante, trazendo prazer, segurança e competitividade”, afirma Henrique que acrescenta dizendo que essa foi uma experiência profissional única e estimulante.

Os projetistas procuravam reproduzir, no desenho da pista, características técnicas de outros autódromos – em especial de circuitos do Moto GP – elogiadas pelos pilotos. Basta olhar para o S depois da descida “adeus mamãe” para se lembrar do S do Senna, em Interlagos. Ter, nos Cristais, uma curva parecida com a famosa Eau Rouge, do SPA-Francorchamps, na Bélgica, era um sonho de Alfredo. Foi o arquiteto Henrique Dias quem aprofundou as análises do terreno, encontrou uma variação de relevo parecida com a curva que fez Ayrton Senna “falar com Deus” e criou a “cauda da onça”.

Para auxiliar na verificação da dirigibilidade, largada e segurança, um simulador foi criado pelo programador Marco Antônio Pinheiro com todas as dimensões e angulações do Circuito dos Cristais. Segundo Alfredo Rodrigues, “muitas alterações vieram dessa simulação. A tecnologia dos videogames é impressionante, o uso dela foi muito importante durante o projeto”.

Desenvolver uma estrutura privada tão grande e complexa sem a ajuda de muitos seria impossível. Além dos funcionários diretos, os comissários técnicos da CBA, a Federação Mineira FMA e vários pilotos foram imprescindíveis para que os mineiros tivessem um autódromo. Os associados do Clube Casa de Pista e todas as pessoas ligadas ao esporte a motor deram alguma contribuição ao projeto.

MOTIVAÇÃO. A paixão pelo esporte a motor foi uma das razões que levaram os empreendedores a idealizar a construção de uma pista em Minas Gerais. A falta de um espaço parecido no estado e o desafio de trabalhar em um projeto ousado também foram considerados. Marco Túlio acrescenta “depois que os domingos de manhã com Ayrton Senna foram interrompidos, acho que todos os brasileiros sentiram um vazio. Tentamos, de alguma forma, preenchê-lo”.

POR QUE CONHECER A PISTA? Várias particularidades tornam o Autódromo Circuito dos Cristais atraente. Além do seu tamanho, dos pequizeiros que definiram o traçado, sua pista é bem equilibrada no que se refere às inversões de direção. Alfredo justifica essa disposição: “muitos circuitos brasileiros apresentam uma grande sequência de curvas para o mesmo lado. Não queria que o autódromo dos Cristais fosse assim”. Esse fato garante desafio aos pilotos que precisam mudar o ângulo de visão e balancear o veículo diversas vezes durante o percurso.  Veja, no gráfico abaixo, a comparação com outras pistas.

Outra peculiaridade: o autódromo é o único considerado circuito misto. Isso porque, no novo traçado de 3.300 metros, ocorre uma junção do autódromo com circuito de rua (há um trecho isolado por blocos, sem área de escape). Esse trecho, chamado também de alça, altera o traçado original e foi projetado recentemente em parceria com a Vicar e a CBA.

Em entrevista, o piloto da Stock Car Lucas Foresti contou o que achou do circuito: “É um traçado muito bem desenhado, um layout show, de alta velocidade, curvas de baixa e de alta, descidas e subidas. Foi bem divertido”. Em um ano de funcionamento, o autódromo já recebeu duas etapas da Stock Car, eventos de mountain bike, bicicleta Speed e campeonatos estaduais de motovelocidade.

Por causa da crise econômica vivida no Brasil, muitos foram os sacrifícios para colocar o autódromo em condições de operação. Não houve um dia nos últimos três anos em que obras não acontecessem no Circuito dos Cristais. Marco Túlio, explica que tem se dedicado ainda mais ao complexo: “Passo parte dos meus dias aqui para facilitar a integração com tudo que está acontecendo. Acompanho todos os processos de benfeitorias e dos eventos”.

Enquanto o Circuito dos Cristais estava sendo projetado, Alfredo Rodrigues se dedicou exclusivamente ao empreendimento. Concluída a missão de entregar um meio para que os apaixonados por velocidade possam se divertir em Minas, o engenheiro e seu parceiro Rafael Siqueira retomam suas atividades na empresa TecPlaner.

FUTURO. De acordo com o administrador, o objetivo em longo prazo é receber, no Circuito dos Cristais, o Mundial de MotoGP. Representantes do Campeonato foram até a pista e emitiram um relatório de melhorias. Ainda há muito a ser feito, mas o circuito suporta expansões e adequações. É um evento caro, mas quem diria, há poucos anos atrás, que teríamos em Curvelo um autódromo?